Da rotina à política, influenciadores indígenas ocupam a aldeia digital

  • 26/04/2026
(Foto: Reprodução)
Em 1981, Baby do Brasil gravou um samba-rock em forma de advertência que, décadas depois, o Brasil ainda caminha a passos lentos para processar. Em Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar, a cantora protesta contra o “homem branco” que limita o dia do indígena a apenas uma data. É que antes de sua chegada, todo dia era dia de índio. Quarenta e cinco anos depois do lançamento da música, o dia dos Povos Indígenas, celebrado no último domingo (19/04), não é mais a única data na qual os olhos do país se viram para suas populações originárias. Nas redes sociais, turbinadas por influencers indígenas, todo dia pode ser dia de índio. Ysani Kalapalo e We’e’ena Tikuna, duas mulheres indígenas, de povos e posicionamentos distintos, são expoentes desse debate. As redes sociais como ferramenta de luta Nas redes desde 2008, Ysani Kalapalo define-se como uma indígena do século XXI. Nascida no Alto Xingu, em Mato Grosso, ela conversou com o G1 após participar do Fórum da Liberdade, realizado nos dias 9 e 10 de abril, em Porto Alegre. No palco, entre debates políticos e econômicos do fórum, falou sobre o jeitinho brasileiro e lembrou da resiliência dos Kalapalos: "Uma coisa de que eu gosto muito no meu povo é a alegria. É algo que eu admiro muito, é exatamente não perder a esperança". Ysani, que começou seu trabalho como influenciadora no antigo Orkut, hoje soma mais de 2 milhões de seguidores entre YouTube, Instagram e TikTok. "Quando eu criei meu perfil, recebi muitos ataques. 'Como assim índio na internet? Lugar de índio é no mato'. Daí eu criei a campanha 'Orgulho Indígena' justamente para combater esse preconceito. De lá para cá, mudou muita coisa. Hoje somos mais aceitos como seres humanos", relembra. O ambiente digital, que já foi usado para mostrar a dança e a cultura de seu povo, tornou-se espaço de debate político sobre indígenas. Em setembro de 2019, Ysani foi convidada pelo então presidente Jair Bolsonaro para integrar a comitiva brasileira na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A decisão provocou uma nota de repúdio à escolha da influenciadora pelo governo Bolsonaro e foi assinada por representantes de 16 povos do Xingu. No Fórum da Liberdade, Ysani defendeu que a escuta não se limite às lideranças. "Ouça o indígena. Vá para as aldeias, converse com a comunidade, não apenas com uma liderança", afirmou. Ysani Kalapalo durante palestra no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre. Daniella Dias Foi no mesmo Orkut que We’e’ena Tikuna chegou à internet. A indígena amazonense hoje se divide entre a aldeia manauara, o Rio e São Paulo. Sua vasta biografia explica o motivo: influenciadora, estilista, ativista, cantora e formada em Artes Plásticas pelo Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia, além de Gestão Financeira e Nutrição. "Eu acreditava que para as pessoas me escutarem, eu tinha que ter uma formação acadêmica, porque elas olham para o indígena e veem como algo do passado, e não do presente, né?", conta. Com quase 5 milhões de seguidores nas redes, We’e’ena divulga saberes ancestrais, rituais, rotina e pinturas corporais. O espaço tornou-se vitrine de cultura e combate. "Hoje as redes são uma ferramenta de luta dos povos indígenas. Antigamente a gente era morto sem ninguém ver. Hoje as nossas terras são demarcadas porque a gente grava que estão matando parentes ali", acredita a influenciadora. We’e’ena Tikuna soma quase 5 milhões de seguidores na internet. Alessandro Kawan We’e’ena relembra que as redes foram o campo de batalha para o lançamento de uma campanha em defesa do Rio Tapajós, em Alter do Chão, contra uma empresa que pretendia explorar o território. "Tivemos mais de 32 mil compartilhamentos, quase 8 mil comentários e quase 1 milhão de visualizações. A campanha foi tão forte que pausou a obra. Se a gente não tivesse a internet, o que estaria acontecendo no rio que é conhecido como o Caribe da Amazônia?", questiona, em entrevista feita por vídeo, algo que já se tornou parte da sua rotina. We’e’ena Tikuna em campanha, nas redes sociais, em defesa do Rio Tapajós, em Alter do Chão. Reprodução Terra e Constituição O marco temporal divide opiniões na internet, no Congresso e entre influenciadores indígenas. Em dezembro de 2025, o Senado aprovou a PEC 48 em dois turnos. O texto define que são demarcáveis apenas as terras que estavam sob posse indígena ou em disputa em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. A proposta ainda precisa ser votada na Câmara. Após sua participação no Fórum da Liberdade, Ysani disse concordar com algumas cláusulas da PEC 48: “Hoje há muita exploração dentro das terras indígenas, mas o indígena não recebe royalties, não tem lucro. Por que o indígena não tem nenhum tipo de lucro se as riquezas naturais estão dentro da sua terra?" Já We’e’ena tem uma visão oposta. "Em 1988 aconteceu o massacre do capacete. Garimpeiros e madeireiros entraram na nossa terra e mataram caciques, lideranças e crianças do povo Tikuna. Sem demarcação de terra vai ter morte, vai ter sangue", afirma. 19 de abril Questionadas sobre o futuro dos povos originários, as diferenças de posicionamento entre a indígena liberal Ysani e a indígena progressista We’e’ena desaparecem. Se Baby do Brasil cantou em 1981 que só restou aos indígenas o dia 19 de abril, as influenciadoras mostram que estão na internet nos outros 364 dias do ano pedindo, cada uma à sua maneira, que os 391 povos originários brasileiros tenham visibilidade. "Que essa data represente mais liberdade, mais autonomia para o povo indígena, porque o indígena é ser humano. É isso que eu peço, liberdade para o povo indígena", acredita Ysani Kalapalo. "Desejo que a gente não lute mais pela demarcação de terras. Não queremos ser peça de museu. A cada ano que passa, se a gente não cuidar do nosso território, dos nossos filhos, essa cultura vai acabar. Daqui a 10 anos eu quero ver meu povo nos seus territórios, quero que a nossa voz seja alcançada através das redes porque a internet é algo que ajudou a salvar muitas vezes. Enquanto a gente está conversando aqui, tem parente morrendo. A nossa luta é contínua", pontua We’e’ena Tikuna Liberdade, demarcação, ativismo, cultura e diferentes colorações políticas: o que une Ysani, We’e’ena e tantos outros indígenas não é a ideologia, mas a recusa de desaparecer. Entre a aldeia e o algoritmo, o que está em jogo é o direito de contar a própria história, sem estereótipo e sem uma única data marcada no calendário. "Nós, indígenas, precisamos, sim, trazer a nossa voz para que as pessoas escutem e saibam que nós existimos e que não, não estamos parados no tempo", resume Alex Potiguara.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/04/26/da-rotina-a-politica-influenciadores-indigenas-ocupam-a-aldeia-digital.ghtml


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